
Um campeão não se faz só com talento, velocidade ou experiência. Um campeão também tem que ter a sua quantidade de sorte. E foi o que Sebastien Loeb teve no Rali da Nova Zelândia, 12ª etapa do Campeonato Mundial de Rali da FIA de 2008.
Sorte? Sim, a vitória de Loeb no rali sediado em Hamilton, ao norte do arquipélago, só aconteceu por uma conjunção de fatores que fazem imaginar que a sorte do campeonato está definida. Neste final de semana, o francês venceu por causa de um enorme azar dos pilotos da equipe Ford, que sofreram com imprevistos a pouco mais de 30 kms do final do rali.
Até o penúltimo estágio do rali, a segunda passagem por Whaanga Coast, Jari-Matti Latvala e Mikko Hirvonen tinham vantagem sobre os adversários da Citroen. Mas o rali só acaba quando o piloto chega são e salvo à sede do rali. E os 29,17 kms do trecho foram determinantes para que ambos os pilotos da Ford ficassem de fora da briga pela vitória, e abrissem caminho para a terceira vitória consecutiva do piloto da Citroen.

Não é o primeiro final de rali neozelandês que tem um final tão emocionante e imprevisível quanto este. Não precisamos ir muito longe para vermos que esta etapa do Mundial é propícia para este tipo de surpresas. Na última edição do Rali da Nova Zelândia, ano passado, Marcus Gronholm só teve a confirmação de que havia vencido Sebastien Loeb na última especial, depois que o francês cruzou a linha de chegada com uma desvantagem de ínfimos três décimos de segundo.
Este Rali da Nova Zelândia não teve um final tão inacreditável quanto a anterior. Afinal, um grand finale como o da edição passada será difícil de ser repetido. Mas o desenrolar da segunda passagem de Whaanga Coast teve uma carga de emoção que não tem sido usual nos últimos tempos de WRC.

Até então, o Rali vinha tinha uma disputa equilibrada entre os pilotos da Ford e Sebastien Loeb. Se Hirvonen e Latvala se revezavam na liderança do rali, o francês não permitia que ambos abrissem vantagem.
A briga foi tão equilibrada que Loeb resolveu utilizar as mesmas armas dos rivais. No momento em que a Ford se valeu de jogos táticos, no sábado à tarde, tentando fazer com que o francês largasse com pista suja no domingo, o piloto da Citroen devolveu na mesma moeda, deixando Latvala como líder da disputa. Não fosse o desenrolar inesperado do último dia, certamente o mote principal do rali teriam sido os jogos táticos entre Loeb e a dupla da Ford.
No domingo, a disputa parecia definida para a montadora norte-americana. Ainda mais depois de um erro cometido por Loeb logo na primeira especial, que custou ao France alguns segundos preciosos. Mas, no final, os problemas enfrentados pela Ford em Whaanga Coast fizeram com que a vitória fosse entregue de bandeja para Sebastien Loeb.
Com a vitória, Loeb abre oito pontos de vantagem sobre os seu rival mais próximo, Mikko Hirvonen. E, a seguir nesta toada, dificilmente perderá o título nas últimas quatro etapas do Campeonato Mundial de Rali.
Na segunda colocação, chegou o companheiro de equipe de Loeb, Dani Sordo. E, com este resultado, complementa um rali praticamente perfeito para a equipe Citroen. Agora, a equipe da montadora francesa está a 20 pontos dos norte-americanos no Mundial de Construtores.
Sordo fez mais um bom rali, agora na terra, e conseguiu seguir o ritmo que o seu companheiro de equipe imprimia. E em boa parte do do domingo, o espanhol esteve à frente de Loeb, após um erro do francês na primeira especial da manhã. E justamente por ter conseguido seguir o ritmo de Loeb, Sordo conseguiu alcançar a segunda colocação depois de Whaanga Coast. E, por causa da melhora no desempeno de Sordo, aconteceu a importante segunda dobradinha consecutiva da Citroen, que tira mais pontos da Ford e de seus pilotos.

Apesar de ainda não ter alcançado uma vitória no WRC, Sordo tem melhorado a olhos vistos. E desempenhos como este do rali kiwi fazem imaginar que Dani Sordo deve ser o próximo piloto a conquistar a sua primeira vitória no mundial de rali.
Fechando o pódio, apareceu Mikko Hirvonen. O finlandês tinha conseguido assumir a liderança do rali no domingo pela manhã. Porém, na desastrosa especial de Whaanga Coast, um furo no pneu e uma saída da pista fez com que o finlandês perdesse quase um minuto para Loeb, o que o fez cair para a terceira colocação, atrás ainda de Dani Sordo.
Poderia ser pior? Claro. Por exemplo, Jari-Matti Latvala, na mesma especial, foi obrigado a abandonar o rali. Foi mais um rali com bom ritmo do finlandês, que conseguia seguir o ritmo de Sebastien Loeb e Mikko Hirvonen. Tanto que havia conseguido consolidar a segunda colocação no rali no último dia de disputas, permitindo que o seu companheiro de equipe abrisse não apenas dois, mas quatro pontos de vantagem sobre o rival da Citroen.
Porém, em Whaanga Coast, o jovem piloto da Ford cometeu um erro e chocou-se com um barranco, afetando o radiador de seu Focus WRC. Devido aos danos causados pelo acidente, foi obrigado a abandonar o rali.
E, num rali em que a Ford parecia que reduziria de forma significativa a vantagem de Sebastien Loeb e da Citroen no campeonato mundial, o desastre foi muito grande. Além de ter perdido a dobradinha, a Blue Oval viu os rivais franceses ocuparem os dois pontos mais altos do pódio, abrindo vantagem nos dois campeonatos.

Como se não bastasse todo este desastre para a equipe principal, François Duval foi outro que ficou pelo caminho na famigerada especial de Whaanga Coast. Competindo pela Stobart-Ford, em substituição ao italiano Gigi Galli -que teve a perna esquerda fraturada na etapa anterior do Mundial-, Duval também vinha mostrando um bom desempenho até chegar à famigerada especial.
Sem competir em ralis de terra desde 2005 e sem ter bons resultados registrados no arquipélago neozelandês, o belga estava na quinta colocação no Rali, até que cometeu um erro próximo do ponto em que Jari-Matti ficou parado. Foi o seu primeiro erro da prova, mas, azar supremo, o Focus WRC verde e branco ficou atolado. Impossibilitado de sair, Duval foi mais um piloto da Ford obrigado a abandonar o rali na penúltima especial.
Quem se beneficiou com todos estes abandonos foi o norueguês Petter Solberg. Que, da sexta posição original, subiu para a quarta colocação do rali, conseguindo marcar mais cinco pontos no Mundial. Solberg não fez um rali brilhante, ficando bem longe da briga pelo pódio -que teve os seus três integrantes separados por pouco mais de um minuto, enquanto o norueguês ficou a quase três do vencedor. Por outro lado, também não comprometeu. E, se até Whaanga Coast 2 ele estava envolvido numa disputa equilibrada com o belga François Duval, após esta especial o campeão do mundo de 2003 teve tranquilidade para chegar até o final do rali sem maiores transtornos.

Sorte pior teve o seu companheiro de equipe Chris Atkinson. Que sofreu uma capotagem logo no primeiro dia e ficou alijado da disputa pelas primeiras colocações. O australiano até tentou voltar à disputa, mas também sofreu com problemas mecânicos, o que obrigou o australiano a abandonar também no sábado e no domingo.
Na quinta colocação ficou o estoniano Urmo Aava, a pouco mais de 40 segundos de Petter Solberg. O vice-campeão do Mundial Júnior da temporada passada teve mais um bom rali, e, se aproveitando dos diversos abandonos que ocorreram à sua frente, conseguiu um bom quinto lugar. Aava é um bom talento do WRC que poderia ter uma oportunidade melhor se tivéssemos mais equipes, e tem demonstrado isso brigando pelas principais posições das etapas do mundial e somando pontos importantes.
Na sexta e sétima colocações, uma grata surpresa. A Suzuki finalmente conseguiu atingir a meta estabelecida logo no início do ano, marcando pontos com os seus dois SX4. Apesar de alguns pequenos contratempos enfrentados no decorrer da prova -como furos nos pneus e rodadas-, ambos os carros da montadora japonesa conseguiram chegar até o final da disputa sem ter maiores problemas.

PG Andersson e Toni Gardemeister, nesta ordem, não escondiam a satisfação de ter levado os dois SX4 até o final do rali, cumprindo uma meta traçada pela equipe logo no começo do ano -de completar um rali sem enfrentar problemas mecânicos. Não que seja um grande feito, mas faz parte do desenvolvimento de um carro totalmente novo, que entrou na disputa praticamente sem bagagem de testes.
Fechando a zona de pontuação, apareceu o argentino Frederico Villagra, da Munchi´s-Ford. Villagra conseguiu marcar o ponto final, chegando a oito minutos e meio de desvantagem para Sebastien Loeb. Ficou à frente de seu companheiro de equipe de ocasião, Henning Solberg, que foi o piloto mais rápido do sábado e do domingo, tendo vencido sete especiais cronometradas do rali. Porém, um problema na bomba de direção no Focus de Henning provocou a perda de 10 minutos para os líderes na sexta, e impediu o norueguês de brigar pelo oitavo lugar.
Na briga pelo campeonato mundial, Sebastien Loeb abriu oito pontos de vantagem sobre Mikko Hirvonen, o segundo colocado. Agora, Loeb tem 86 pontos, contra 78 do piloto da BP-Ford. Restando mais duas etapas de asfalto, que serão disputadas apenas em outubro, e mais duas em terra, parece que a briga pelo campeonato está praticamente definida em favor do francês. Mas resta ver se as tendências serão confirmadas, ou se o campeonato nos reserva mais surpresas como a que vimos na Nova Zelândia.

Dani Sordo consolida a sua terceira colocação no Mundial, com 51 pontos. Chris Atkinson aparece a seguir, com 40. Jari-Matti Latvala ainda não pontuou depois das férias de meio de ano, e segue com 34 pontos, apenas doi spontos à frente de Petter Solberg, que pontuou nas últimas cinco etapas consecutivamente. Quem teve uma série de seis ralis consecutivos na zona de pontuação foi justamente Henning Solberg, que está na sétima colocação no Mundial, com 22 pontos. Gigi Galli (17), Mathew Wilson (12), François Duval e Urmo Aava (11 cada) fecham os onze primeiros colocados do Mundial.
No campeonato de equipes, a Citroen-Total aparece na liderança, com 141 pontos. A BP-Ford aparece em segundo lugar, com 121. Subaru, com 74, Stobart-Ford com 51, Munchi´s-Ford com 22 e Suzuki com 20 fecham a zona de pontuação.
A próxima etapa do Campeonato será o Rali da Catalunha, na Espanha. A etapa espanhola do WRC será disptada daqui a quatro finais de semana, entre os dias 2 e 5 de outubro, na cidade de Salou.
Fotos: Ford, Subaru, Stobart-Ford, Suzuki e Motorsport.com


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