
Cenário sombrio, cheio de mistérios. Desconhecido para parte da sociedade, que prefere o sossego de seu lar. Mas também é o período em que muitos saem para se divertir. Nas grandes cidades, também para trabalhar. Esta é a noite. Agitada em muitos lugares do mundo.
Certo dia, a Fórmula 1 decidiu que era bem grandinha. E disse para o seu o tio Bernie que achava que poderia descobrir os mistérios da tão falada noite. Tio Bernie, muito astuto, prometeu que a passagem dos seus 800 Grandes Prêmios não passaria desapercebida, prometendo uma festa e tanto para a debutante.
E realmente foi o que aconteceu. Muita luz, um belíssimo cenário, gente feliz e carros pulando… Bem, o Grande Prêmio de Cingapura, a primeira corrida noturna da história da Fórmula 1, foi uma verdadeira festa para a categoria. Uma bela homenagem para a grande homenageada da noite, que tinha neste evento a realização da sua octingentésima etapa de sua história.

Não há como negar. A cidade-estado de Cingapura, pequeno país situado numa ilha entre a Malásia e a Indonésia, organizou uma festa muito bonita para a Fórmula 1. E, em troca, teve lotação esgotada no circuito de Marina Bay (Baía da Marina), cheio de interessados em fazer parte da platéia, no primeiro circuito de rua da Ásia a fazer parte do calendário do Campeonato Mundial. O sistema de iluminação provou ser dos mais eficientes, e não houve uma reclamação sequer sobre esta novidade que a categoria apresenta.
Se a etapa de Valência, apresentada como uma etapa com todo o glamour de Mônaco em uma roupagem mais moderna teve um certo gosto de decepção, a prova de Cingapura aparece com uma novidade indiscutível. A noite dá à prova cingapuriana um charme todo especial para a pista.
Evidente que houveram algumas falhas que não podem ser encobertas. Mas nenhuma relacionada ao evento ter sido realizado à noite. Mas foram falhas de estrutura da pista, como o grande número de ondulações e algumas zebras mal colocadas, além, claro, da falta de pontos de ultrapassagem -o que também se repete em Valência e Mônaco, aqui entre nós. E, não fosse pela entrada do Safety Car em suas ocasiões, certamente a corrida teria perdido muito de seu brilho e o resultado final inusitado não teria acontecido.

Estes pontos pesaram negativamente na impressão da nova prova. De toda a forma, o sucesso da realização da prova à noite superou toda e qualquer crítica neste primeiro momento.
De toda a forma, sobre a realização da prova, o resultado final que se tem é positivo. E, obviamente, este acaba sendo mais um motivo de pressão para os organizadores de etapas da Fórmula 1 no oriente -como as atuais China, Japão, Malásia e Austrália. Agora, quando algum deles tiver que enfrentar tio Bernie para renovar o seu contrato de promoção do Grande Prêmio, pode ser obrigado a adaptar a sua pista para uma prova noturna.
Por que? Bem, porque, localizados no extremo oriente, tem uma significativa diferença de horário para a Europa, onde ainda se concentra a imensa maioria da audiência da Fórmula 1 no mundo. E, sendo realizada à noite, ocorre num momento mais favorável para a audiência européia, que pode acompanhar a sua corrida no mesmo horário habitual de uma eventual prova realizada no continente europeu.

Assim sendo, não será nenhuma surpresa que outras corridas na Ásia ou na Austrália passem para o horário da noite local -que seria o da tarde no continente europeu e manhã em terras brasileiras. E, da mesma forma, não é nenhuma surpresa que a prova final do campeonato, a ser disputada no Brasil no próximo dia 2 de novembro, tenha o seu horário mudado apenas para satisfazer o interesse da audiência européia. Ou seja, vivemos uma globalização das provas, mas o interesse prioritário para ser atendido é o do consumidor europeu. Parece que já vimos esta história em algum lugar…
Pois bem. Falando sobre a corrida, não há como negar que foi uma grande apresentação de Fernando Alonso, vencedor da corrida. Foi a vigésima vitória da carreira do espanhol, que também subiu no pódio pela 50ª vez em sua carreira.
O espanhol se aproveitou de uma estratégia muito arriscada para conquistar a vitória no circuito cingapuriano. E venceu de forma semelhante à de Nelson Piquet quando este alcançou o pódio no último GP da Alemanha -se valendo de uma entrada do Safety Car. Mas, há de se fazer justiça com o bi-campeão do mundo, ele tem arriscado este tipo de estratégia de altíssimo risco desde o começo da temporada, quando o espanhol viu que o seu Renault R28 não era um carro capaz de fazer frente aos seus adversários.

Alonso partiu para uma estratégia de parada cedo. E, desde o começo da prova, era o piloto mais rápido da pista. Como havia sido nos dias anteriores. Porém, foi impedido de largar de uma posição melhor do que o 16º lugar por causa de uma falha no sistema de alimentação do motor de seu carro no meio de uma volta de instalação na sessão de classificação.
Nesta estratégia arriscada, o espanhol foi o primeiro a fazer a sua parada nos boxes. E escapou de uma boa, já que o seu companheiro de equipe, Nelson Piquet, causou uma bandeira amarela justamente no momento em que os seus principais adversários eram obrigados a parar nos boxes. Os outros adversários haviam apostado em uma estratégia de uma parada, e, mesmo à frente de Alonso, não representavem perigo à sua vitória. Assim, Alonso tinha a vantagem de ser alavancado para a liderança da prova sem precisar fazer muitas ultrapassagens.
A questão é que Alonso sempre esteve entre os mais rápidos da pista. E, mesmo tendo contado com a sorte, ele foi muito competente em manter a sua posição ao abrir uma vantagem confortável sobre os seus adversários. No final da prova, quando a vantagem construída pelo espanhol durante a corrida foi tirada por mais uma entrada do Safety Car, Alonso foi capaz de ampliar a sua vantagem sobre os seus adversários e a manter, mesmo sem ter mais um equipamento tão eficiente.

É a volta do espanhol ao ponto mais alto do pódio desde o Grande Prêmio da Itália de Fórmula 1 do ano passado. Naquela oportunidade, ainda pela Mclaren, Alonso venceu e até poderia ter partido para o título. Mas não foi isso o que aconteceu. Nesta temporada, não há muito mais com o que sonhar, já que ele ocupa a sexta colocação final, e está 13 pontos atrás de Heikki Kovalainen na classificação do mundial.
Em segundo lugar, outra surpresa. Nico Rosberg fez a melhor corrida de sua carreira na Fórmula 1 e levou a Williams para o pódio pela segunda vez na temporada. Foi uma ótima prova do filho do campeão do mundo Keke Rosberg, que chegou, inclusive, a liderar a prova.
Rosberg ainda teve que enfrentar alguns percalços pelo caminho, como a punição por ter entrado nos boxes na volta desessete (durante a bandeira amarela provocada pelo acidente de Nelson Piquet). Naquele momento, o pit-lane estava fechado e as paradas proibidas. Porém, sem combustível, o alemão preferiu parar nos boxes e cumprir a punição a ficar pelo caminho com pane seca.

Neste mesmo momento, também foram obrigados a realizar a mesma escolha Robert Kubica e Rubens Barrichello. Barrichello logo foi obrigado a abandonar, terminando com mais um final de semana para esquecer.
Porém, Kubica vinha fazendo mais uma boa prova antes ser obrigado a parar nos boxes, quando estava na quarta colocação. Depois disso, a sua corrida virou um pesadelo. A diferença entre o polonês e Rosberg é que o piloto da BMW não conseguiu se livrar de Giancarlo Fisichella rapidamente. Por outro lado, o alemão logo conseguiu se livrar do Force Índia do italiano, que estava fazendo uma estratégia de paradas diferente, e assim conseguiu abrir boa vantagem sobre os seus adversários.

A diferença que este pequeno detalhe fez na corrida de ambos foi brutal. E, se Nico conseguiu a segunda colocação no GP cingapuriano, Kubica ficou apenas na 11ª colocação. Foi uma boa prova para a equipe Williams, que viu, também, o japonês Kazuki Nakajima chegando na oitava posição.
Já o companheiro de equipe do polonês, Nick Heidfeld, chegou na sexta colocação, em mais uma corrida em que a constância contou para que ele alcançasse esta boa colocação.
Lewis Hamilton fechou o pódio na corrida noturna. Hamilton também enfrentou problemas no momento da entrada do carro de segurança. Antes do acidente de Piquet, o inglês tinha a segunda colocação, logo atrás de Felipe Massa. Depois da parada, saiu na oitava colocação. Hamilton, porém, conseguiu se recuperar conforme as estratégias foram se igualando. Com um carro muito mais competitivo do que seus adversários, porém sem conseguir ultrapassá-los com facilidade, Hamilton apenas conseguiu confirmar a sua colocação no pódio no momento em que voltou de sua segunda parada nos boxes.

Se Hamilton teve pequenos percalços, Felipe Massa teve a sua briga pelo campeonato seriamente comprometido nesta fatídica rodada de paradas nos boxes. O que foi apontado como o grande responsável foi o moderno sistema de liberação dos pilotos, que a Ferrari estreou na temporada passada. O mecânico responsável acionou o sinal verde de liberação do brasileiro para a pista num momento completamente equivocado, fazendo com que Massa saísse do box ainda com a mangueira de reabastecimento engatada. E, ainda pior, em cima da Force Índia de Adrian Sutil, que passava para realizar a sua parada.
O brasileiro desfilou pelo pit-lane com a mangueira engatada em sua Ferrari, numa cena ridícula, não fosse desastrosa. E foi obrigado a parar no final do pit-lane para esperar que a Ferrari retirasse o equipamento pendurado em seu carro. Massa vinha em uma boa prova, tendo largado na pole-position e mantido a liderança até a 17ª volta. Depois deste incidente, não conseguiu se recuperar e ficou apenas na 13ª colocação.

Já Kimi Raikkonen, mais uma vez, não conseguiu pontuar, e, com isso, saiu definitivamente da briga pelo título. Não seria tão problemático para a Ferrari que o finlandês tenha se perdido na segunda metade do campeonato se este fato não estivesse comprometendo a briga pelo título de construtores. Mas é o que vem acontecendo, e os italianos, com esta corrida patética, perderam a liderança da Copa dos Construtores pela primeira vez desde o início da temporada européia.
Desta vez, Kimi bateu o seu carro a cinco voltas do final da prova, quando parecia ter assegurada a quinta colocação da corrida. Mais uma vez, o campeão do mundo fazia uma prova discreta, sem conseguir se destacar. Estes momentos de brilho parecem ter ficado na temporada passada.

Quem se destacou na noite cingapuriana foi Timo Glock, que parece ter se encontrado depois de um começo de temporada complicado. Com este resultado, o alemão coroou uma boa corrida da Toyota, que teve a infelicidade de ver Jarno Trulli sofrendo uma quebra a dez voltas do final.
O italiano também fazia uma boa prova, tendo, inclusive, ocupado a liderança da corrida por algumas voltas antes de sua parada nos boxes. Porém, ao sair desta parada, o Toyota de Trulli não mais teve o mesmo desempenho, e abandonou a prova quando ocupava a sexta colocação, com problemas hidráulicos.

Sebastian Vettel, mais uma vez, mostrou porque é considerado um grande piloto. O alemão fez uma corrida discreta, porém constante, e conseguiu chegar, no final da prova, a quinta colocação. Foi um bom final de semana para o grupo Red Bull, que viu o piloto de sua equipe oficial também chegar na zona de pontuação. David Coulthard, que faz a sua temporada de despedida, levou o seu Red Bull para a sétima colocação no final da prova.
Curiosamente, depois de 15 etapas disputadas, o campeonato mundial de pilotos volta à situação que estaria se Lewis Hamilton não tivesse sido punido com a perda de pontos no GP da Bélgica. Agora, são sete pontos de vantagem do inglês sobre o brasileiro (84 a 77). A briga pelo campeonato está restrita aos dois pilotos, restando três etapas para o final do campeonato (Japão, China e Brasil).

Em terceiro lugar, segue Robert Kubica, com 64 pontos, com boa vantagem sobre Kimi Raikkonen, que tem 57. Colado no campeão do mundo está Nick Heidfeld, que agora soma 56. Heikki Kovalainen tem 51 pontos.
Fernando Alonso consolida a sexta colocação no mundial, com 38 pontos. Sebastian Vettel tem 27, logo à frente de Jarno Trulli, com 26, Timo Glock e Mark Webber, com 20.
Entre os construtores, uma grande novidade. A Ferrari perdeu a liderança para a McLaren por um ponto. Agora, os ingleses lideram a competição por 135 a 134. Em terceiro vem a BMWSauber, com 120 pontos. Bem distante, aparece a Renault, com 51 pontos, que toma a quarta colocação no campeonato da Toyota (com 46). A Toro Rosso aparece em sexto, com 31 pontos, pouco à frente de Red Bull (28) e Williams (com 26). A Honda é a última classificada, com 14 pontos.

A Fórmula 1 volta a ocupar as madrugadas brasileiras. E a próxima etapa será o Grande Prêmio do Japão, a ser disputado no circuito de Fuji no próximo dia 12 de outubro.


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4 users responded in this post
Os textos vieram no atacado.
O enfoque sobre a grande novidade no Gp de Monza foi muito certeiro. Temos que ter realmente os pés no chão.
Como sempre, comentários pertinentes e precisos.
Só uma dúvida: depois do 14, não seria o 15 ???
Fato, Oliver.
Corrigido.
Um dia, não vou precisar fazer cinco coisas ao mesmo tempo e vou fazer tudo direitinho.
[]´s e obrigado pelo aviso.
Grande Kohara.
Claro que poderia ter falado pelo msn ou mandado MP, mas aqui fica mais legaU.
Correria é grande mesmo.
Apenas pra poucos é fácil, muito fácil.
Para os simples mortais é mais complicado.
Enfim, é como aquela frase que existe em cima da porta de entrada das salas de cirurgia:
Errare humanun est.
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