
Se há uma palavra para definir o que foi o Grande Prêmio da Itália, 14ª etapa do Campeonato Mundial de Fórmula 1 de 2008, esta palavra é surpreendente.
Disputado inteiramente sobre pista molhada, a corrida disputada no Autódromo Nacional de Monza teve um dos resultados mais inusitados, pelo menos desta década. Poucas vezes se viu uma zebra tão grande numa etapa de Fórmula 1. Tudo bem que a chuva equilibra as condições mecânicas dos pilotos, fazendo com que o braço do piloto faça toda a diferença. Mas, mesmo assim, pouquíssimos apostariam no que acabou acontecendo na corrida italiana.
A começar pela própria situação climática da pista. Monza ficou debaixo d´água, sofrendo com as fortíssimas chuvas que assolaram a região de Milão no último final de semana. Para se ter uma idéia de quão rara é esta situação para Monza nesta época do ano, vale lembrar que nenhuma das 58 edições anteriores do GP da Itália de Fórmula 1 sediado na lendária pista italiana havia visto uma corrida sobre piso completamente molhado.

E o vencedor, o alemão Sebastian Vettel, não era dos mais cotados para vencer a prova, mas dominou de forma maiúscula a etapa italiana, mostrando total controle e maturidade no decorrer da prova. Vettel pilotou como um veterano, não cometeu nenhum erro durante o final de semana inteiro, e coroou um trabalho praticamente perfeito da Toro Rosso com a primeira vitória de sua carreira, da equipe e do grupo Red Bull na Fórmula 1.
A vitória do jovem alemão também foi surpreendente pela eficácia demonstrada pelo conjunto ítalo-austríaco. Numa pista em que o bom desempenho depende quase que exclusivamente da força do motor, Sebastian Vettel alcança uma vitória com um motor versão cliente da Ferrari –fato que nunca havia acontecido antes.
Aliás, para se ter uma idéia de como o dinheiro tem ganho ainda mais importância na Fórmula 1, a vitória alcançada pelo jovem alemão é a primeira de uma equipe independente do apoio das grandes montadoras desde o longínquo Grande Prêmio do Brasil de 2003 –quando Giancarlo Fisichella venceu uma corrida mais confusa do que a do final de semana.

E, numa situação em que a equipe praticamente não mexeu no acerto de pista do seco para o molhado -como afirmou Vettel ao final da corrida-, o STR03 se comportou de forma esplendorosa na pista italiana.
Aliás, a evolução dos carros da Toro Rosso ficou evidente nos últimos GPs. Da etapa de Valência para cá, em que a força do motor tem se mostrado um fator extremamente importante, a equipe comandada por Franz Tost e Gerhard Berger tem alcançado ótimos resultados.
Muito se deve à melhor adaptação dos motores Ferrari ao conjunto do carro, mas também à evolução demonstrada pelos italianos na construção do motor. Considerando-se que Red Bull e Toro Rosso competem com o mesmo projeto de carro, mas que foi desenvolvido para utilizar os motores mais compactos da Renault, o carro da Toro Rosso andar mais não deixa de ser sintomático.

Mas os carros da Toro Rosso andaram muito bem em todas as sessões do final de semana e, tanto Vettel quanto Sebasiten Bourdais sempre estiveram entre os primeiros colocados. A habilidade de Vettel é evidente desde o GP do Japão do ano passado, quando, não fosse por um vacilo em um dos diversos “brake tests” aplicados por Lewis Hamilton em uma das intermináveis entradas do Safety Car, teria alcançado um resultado histórico já naquela ocasião. E, desde então, no momento em que temos pista molhada na Fórmula 1, sabemos que o jovem Vettel é um dos pilotos a serem observados.
A evolução da equipe que sucedeu a Minardi se vê no momento em que Sebastien Bourdais conseguiu o melhor treino de classificação de sua carreira na Fórmula 1 - quarto lugar. A vitória de Vettel veio coroar a grande aparição dos italianos em seu GP da casa. O francês, por sua vez, cometeu um erro ainda na largada, quando soltou a embreagem rápido demais.
Houve uma falha no sistema que impediria que o motor engasgasse e o motor de sua Toro Rosso morreu. Foi um problema que custou uma volta ainda no início da prova e impediu que ele pudesse participar da prova de forma satisfatória. De toda a forma, o ritmo empreendido pelo francês depois que ele conseguiu entrar na prova –quando chegou a marcar a 2ª volta mais rápida da corrida- dá a entender que, se não tivesse sofrido este problema, Bourdais poderia ter alcançado o pódio.

Vettel, com o resultado do final de semana, se torna, com isso, o piloto mais jovem a conquistar uma pole-position, alcançar o pódio e vencer uma corrida, tomando o posto de Fernando Alonso, com 21 anos e 72/73 dias. Um feito que dificilmente será batido. Ao final da prova, na festa do pódio, uma seqüência que deixou alguns arrepiados –tanto de pavor quanto de emoção. E o hino alemão foi novamente executado numa corrida de Fórmula 1 depois do final de 2006. E, novamente, seguido do hino italiano…
Mas o Grande Prêmio da Itália não foi apenas a história de uma vitória maiúscula da Toro Rosso. E também teve outros grandes personagens. Como Lewis Hamilton, que fez uma corrida de recuperação depois de largar da 15ª colocação. Décima quinta colocação? Teria sido punido?
Na verdade não. Hamilton pagou o preço por ter arriscado demais na segunda fase da classificação. E, num momento em que a pista ainda não tinha condições de ser utilizada com os pneus intermediários, sair com este tipo de pneus certamente traria alguma conseqüência. No fim, custou caro esta aposta, já que voltou a chover forte no final da chamada Q2, os tempos não puderam mais ser melhorados e o inglês foi obrigado a largar da oitava fila.

Porém, na corrida, Hamilton guiou muito. E empreendeu uma grande recuperação durante toda a corrida. Saiu da 15ª colocação, ultrapassou pilotos por dentro, por fora, fez a limpa. Apesar de alguns momentos em que ultrapassou o limite do jogo limpo –como na ultrapassagem sobre Timo Glock, quando jogou o alemão para fora da pista-, Hamilton andou como poucos na pista molhada de Monza.
Porém, o inglês cumpria uma estratégia em que previa apenas uma parada nos boxes, acreditando que não haveriam mudanças significativas na situação climática na parte final da corrida. Não foi o que aconteceu, e novamente Lewis pagou o preço de ter arriscado demais na meteorologia. No final, o sétimo lugar final ficou longe de refletir a grande apresentação do inglês.
De toda a forma, no campeonato, até que a corrida de Monza não foi um mau resultado para Hamilton. Afinal, mesmo tendo dois pontos de vantagem sobre Felipe Massa antes da corrida, que largou nove posições à frente, ainda saiu de Monza na liderança do campeonato, tendo quatro provas para o final do campeonato. A diferença caiu para um ponto, mas não é nenhum prejuízo absurdo, dadas as condições em que a corrida se transcorreu.

Na outra McLaren, o segundo lugar de Heikki Kovalainen não foi exatamente um resultado comemorável. Afinal, o finlandês tinha à sua frente uma Toro Rosso. E, em nenhum momento da corrida, Heikki conseguiu sequer fazer sombra a Vettel. De toda a forma, o resultado do finlandês ajuda a equipe prateada a se aproximar dos rivais da Ferrari no Mundial de Construtores. Agora, a vantagem da Ferrari é de apenas cinco pontos, num campeonato que promete ser equilibrado até o final.
Completando o pódio, mais um piloto que conseguiu uma ótima corrida de recuperação depois de sofrer na classificação. Robert Kubica, depois de largar na 11ª colocação, fez mais uma grande prova, e, apesar de não ter sido tão espetacular quanto Lewis Hamilton, conseguiu fazer as escolas corretas e chegou ao pódio novamente na pista italiana.
Com este resultado, o polonês aumenta para sete pontos a sua vantagem sobre Kimi Raikkonen na briga pelo terceiro lugar do Campeonato Mundial. E, com 64 pontos, pode pensar em manter esta colocação até o final do campeonato, conseguindo um resultado impressionante para uma equipe que tem mostrado evolução desde que foi assumida pelos bávaros.

Nick Heidfeld, o seu companheiro de equipe, também fez uma prova de recuperação competente e acabou alcançando a quinta colocação depois de largar em décimo. Apesar da classificação ainda ser o ponto fraco da equipe, pelo menos nos trechos de corrida o BMW F1-08 parece se comportar bem. Com isso, a BMWSauber volta a respirar ares melhores depois de roer o osso nas provas de Hungaroring e Valência.
Em quarto, mais uma vez, ficou Fernando Alonso, da Renault. O bicampeão mundial fica pela quarta vez nesta temporada na quarta colocação, sendo este o melhor resultado do ano para ele. O espanhol, mais uma vez, fez uma prova segura, e sem cometer erros. Porém, o carro da Renault o impede de sonhar com melhores resultados.
Para a Ferrari, o resultado não pode ser considerado bom, já que Monza é a sua casa. Apesar de Felipe Massa ter somado três pontos com a sexta colocação alcançada no GP italiano, os tifosi devem ter saído do autódromo de Monza um tanto decepcionados com o que viram.

Massa teve a grande chance de alcançar Lewis Hamilton e partir para a segunda perna asiática em vantagem. Porém, o brasileiro está longe de ser considerado um especialista em pista molhada, e não fez uma grande prova. De toda a forma, acabou com o seu melhor resultado na pista italiana em sua carreira na Fórmula 1.
Kimi Raikkonen, o atual campeão mundial, fez pior. E, numa atuação que pode ser considerada burocrática –para se dizer o mínimo-, não conseguiu alcançar os pontos, ficando na nona colocação. É um resultado que praticamente sela a sua sorte neste campeonato. O finlandês deve servir de escudeiro para Felipe Massa, que ainda tem boas chances de brigar pelo título.

Mark Webber, outro que, apesar de um erro logo depois da saída de sua segunda parada nos boxes, fez uma boa prova, ficou com a vaga final da zona de pontuação. A situação do australiano mostra um pouco a decadência dos carros da equipe principal da Red Bull com relação à sua filial. De um começo de temporada muito bom, quando alcançava a zona de pontuação com tranqüilidade, Webber agora sofre muito para alcançar o mesmo patamar. Como seu carro é praticamente o mesmo utilizado pela Toro Rosso, com a única diferença sendo o motor (Renault da equipe oficial e Ferrari da filial), é fácil deduzir o que tem feito a diferença em favor dos italianos.
Fica o registro da 500ª corrida realizada pela equipe Williams, fundada em 1978. Porém, afora este marco histórico, Kazuki Nakajima e Nico Rosberg não terão muito do que lembrar do encharcado GP italiano. E terminaram a prova em 12º e 14º lugares, respectivamente.
O campeonato mundial de pilotos sai da temporada européia prometendo um final de campeonato emocionante. Lewis Hamilton é o líder, com 78 pontos, apenas um à frente de Felipe Massa. Robert Kubica é o terceiro, com 64, sete à frente de Kimi Raikkonen, estacionado desde o GP da Hungria com 57. Nick Heidfeld se aproxima do campeão mundial, e tem 53 pontos. Quem também tem se aproximado de Kimi é seu compatriota Heikki Kovalainen, com 51 pontos.
Fernando Alonso tem 28 pontos, e ocupa a sétima colocação, liderando mais um pelotão. Logo atrás do espanhol vêm Jarno Trulli (26), Sebastian Vettel (23) e Mark Webber (20), fechando os dez primeiros colocados do mundial.

Entre os construtores a Ferrari ainda lidera, com 134 pontos. McLaren (129) e BMW Sauber (117) aparecem a seguir. Em quarto lugar, empatadas, aparecem Renault e Toyota, com 41 pontos. Com a vitória, a Toro Rosso sobe para a sexta colocação, com 27, um a mais do que a sua matriz Red Bull. A Williams tem 17 pontos e, fechando a classificação, aparece a Honda, com 14.
A próxima etapa do Campeonato Mundial será o Grande Prêmio de Cingapura, estréia da cidade-estado asiática no calendário da Fórmula 1. A prova, que será disputada em um circuito de rua, será disputada à noite no horário local (manhã no horário brasileiro).


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