
A edição deste ano do Grande Prêmio da Bélgica de Fórmula 1, 13ª etapa do Campeonato Mundial, não foi uma corrida totalmente emocionante. Mas foi uma prova comum com alguns lances de emoção logo em seu início e uma generosa dose de adrenalina nas últimas três voltas, chegando a ter surpresas até mesmo depois da bandeirada final.
Mas estamos na mítica pista de Spa-Francorchamps. Logo, as emoções vêem em dose cavalar, de forma a que os fãs de automobilismo não tenham do que reclamar.
Logo nas primeiras voltas, uma frenética disputa fez com que muitos pilotos mudassem de posições. Kimi Raikkonen, da Ferrari, é um exemplo. Mais adaptado às condições da pista no início da prova, passou Heikki Kovalainen logo na largada e partiu para cima de Felipe Massa ainda na primeira volta.
Imprimindo um ritmo alucinante, ultrapassou Lewis Hamilton no início da segunda volta. O inglês ajudou, e, depois de ter largado de forma tranquila e assumido a ponta, cometeu um erro infantil na La Source -a primeira curva da pista belga- e permitiu que Raikkonen o ultrapassasse.
Graças a este início de prova demolidor, nada indicava que o vencedor da prova não seria o finlandês. Não que fosse uma surpresa, afinal com esta vitória ele igualaria o feito de Jim Clark e Ayrton Senna, que venceram quatro vezes consecutivas na pista belga. Mas não deixaria de ser lembrada como a vitória provocada por um início de prova matador.
Depois desta abertura, as emoções se estabilizaram. Se o começo da corrida foi extremamente favorável a Kimi, poucas voltas depois Hamilton conseguiu equilibrar a disputa, equilibrando os tempos e estancando o aumento da diferença entre a Ferrari número 1 e a Mclaren 22 num patamar médio de cinco segundos.
Num ritmo bem superior ao de seus adversários, Kimi e Hamilton travavam um duelo particular, sem ser incomodados pelos seus adversários. Enquanto isso, Felipe Massa não parecia no melhor dos seus dias. Sua Ferrari rendia menos do que seus adversários e ele pouco poderia fazer para se reduzir a diferença. O que ele poderia fazer era se concentrar em terminar a prova no pódio, de preferência, esperando que um resultado melhor pudesse cair do céu. Se não, a idéia seria levar o carro vermelho até o final -o que, devido aos problemas dos últimos GPs, e levando-se em conta que o motor da Ferrari de Massa estava em sua segunda corrida, seria um bom resultado para o brasileiro.

Como não tínhamos grandes mudanças nas condições de pista, o cenário não se alterou muito e o intervalo entre a terceira e a quadragésima volta não provocou alterações drásticas. A corrida parecia caminhar para o seu final com os três candidatos ao título terminando a prova nesta ordem.
Porém, a chuva, que não havia dado as caras na corrida, chegou no final da prova. Não de forma torrencial, mas com força suficiente para mudar as condições da pista. E isso provocou uma reviravolta nas correlação de forças entre os carros das equipes.
E isso provocou um final da prova épico, como foi adiantado. Com a pista ficando mais úmida a cada volta, a Mclaren de Lewis Hamilton começou a render muito mais do que a Ferrari de Kimi Raikkonen. E, com isso, a diferença que o finlandês abriu no começo da corrida virou pó, fazendo com que uma corrida que parecia garantida para Kimi Raikkonen voltasse a ter os seus momentos de emoção.

Há uma explicação para toda esta reviravolta. As Mclarens tem se mostrado mais eficientes em situação que o clima está mais ameno e mais úmido. Por outro lado, as Ferraris tem sido quase imbatíveis quando temos uma situação de maior calor e tempo seco. Isso se dá graças à forma com que os carros usam os seus pneus. Os carros da Mclaren tem uma temperatura ideal de uso mais baixa do que os carros italianos, e também conseguem atingir esta temperatura ideal de forma mais rápida.
No final da volta 42, Lewis encostou em Kimi de forma definitiva. E, no final da volta, na freada da Bus Stop -última curva da pista belga-, partiu para a primeira tentativa contundente de tomar a liderança da mão do finlandês. Na freada, Hamilton optou por partir por fora no momento em que Raikkonen defendeu a trajetória por dentro da primeira perna da chicane. Num movimento habitual para os que tem a trajetória por dentro da curva, o finlandês espalhou (abriu um pouco a trajetória) para se defender -o que é perfeitamente aceitável-, e Hamilton foi obrigado a cortar caminho pela área de escape.

O inglês levou vantagem nesta manobra. E o que diz o regulamento da FIA para estes casos? Que o piloto que fez uma manobra ilicita não pode ser beneficiado por esta manobra. Hamilton até devolveu a posição para Raikkonen, mas ficou em uma posição muito mais vantajosa do que teria se tivesse completado toda a Bus Stop do lado -ou atrás- do finlandês. E o inglês se precipitou e não esperou uma nova oportunidade de tentar a ultrapassagem, passando o finlandês já na curva seguinte, na La Source.
A questão aqui não é simplesmente devolver a posição ou não. Mas ver se o piloto em questão levou vantagem. Hamilton levou vantagem no momento em que não conseguiria fazer a manobra que fez contra Raikkonen na La Source se tivesse cumprido a trajetória da pista. E por isso a punição dada pelos comissários de pista, que seria uma passagem pelos boxes (Drive Through) foi revertida em tempo acrescido na classificação final da prova (25 segundos).
As emoções da prova não terminaram por aí. Com a pista molhada, Raikkonen, agora atrás de Lewis Hamilton, tentou forçar o ritmo para superar a McLaren do inglês. E, em uma volta, saiu três vezes da pista na mesma volta. Na última, não conseguiu evitar o choque com o muro da curva Blanchimont, no trecho mais rápido da pista, sendo obrigado a abandonar a corrida.
Com isso, Lewis Hamilton seguiu para a vitória, pelo menos na pista. Felipe Massa ficou com a segunda colocação, herdando a posição de seu companheiro de equipe Kimi Raikkonen.

Depois de duas horas da bandeirada final da corrida, os Comissários anunciaram a decisão de punir o inglês da McLaren, tirando a vitória do inglês. Hamilton, com esta punição, caiu para o terceiro lugar, ficando atrás não apenas de Felipe Massa, mas também de Nick Heidfeld, da BMW Sauber.
Às vezes, as corridas não são exatamente justas. E o vencedor da corrida, Felipe Massa, não foi o melhor piloto da pista. Porém, da mesma forma que o brasileiro perdeu a vitória no Grande Prêmio da Hungria tendo feito uma das melhores corridas de sua carreira, a vitória na pista belga não foi a melhor de suas apresentações. Mas, da mesma forma que Heikki Kovalainen em Hungaroring, tem o mérito de ter estado no lugar certo e na hora certa para vencer a prova.

Com a vitória, Felipe fica em posição muito favorável no campeonato. Se não é o melhor dos mundos, pelo menos fica em uma situação muito melhor daquela que ele ficaria se a corrida teria acabado três voltas antes. Se a situação final da prova fosse aquela, Lewis Hamilton teria 80 pontos, contra 70 de Felipe e 65 de Kimi, deixando a situação bem mais complicada para o brasileiro.
Da forma que terminou, Massa tem uma situação bem mais favorável. Com 76 pontos a 74 em favor do inglês e com Kimi praticamente fora da briga pelo título (com 57 pontos), a disputa fica polarizada entre o inglês e o brasieliro.
Nick Heidfeld conseguiu uma recuperação fantástica. O alemão fazia uma prova regular até três voltas do final, quando estava na sétima colocação. Mas uma aposta arriscadíssima deu certo, e pagou altos dividendos para o alemão. A duas voltas do final, Heidfeld apostou nos pneus para pista molhada, no momento em que a situação da pista piorou muito.

E, numa recuperação fantástica, conseguiu deixar cinco adversários para trás na pista, e ainda acabou beneficiado pelo acidente de Raikkonen e a punição de Hamilton, ficando com a segunda colocação.
Fernando Alonso foi outro que apostou também. Mas sua aposta não rendeu tanto quanto a de Heidfeld. Alonso teve uma grande apresentação, fazendo uma prova competitiva. O espanhol assumiu a posição de melhor dos outros, ocupando a quarta colocação em grande parte da corrida. No final, perdeu a posição para Nick Heidfeld ao apostar na parada de Box na última volta. De toda a forma, a quarta colocação é o melhor resultado alcançado pelo bi-campeão mundial na temporada –Austrália e Hungria foram as outras duas.

Quem fez uma grande prova foi a Toro Rosso, que conseguiu fazer com que seus dois pilotos alcançassem a zona de pontuação. Beneficiada pela evolução dos motores da Ferrari, a equipe B da Red Bull tem conseguido resultados melhores do que sua matriz.
Sebastian Vettel acabou na quinta colocação, beneficiado pela situação complicadíssima nas últimas voltas. O alemão teve uma boa prova, mas provavelmente não teria chegado numa posição tão destacada se as condições do final da prova não tivessem sido tão complexas. Vettel, por outro lado, mostrou mais uma vez o seu talento nato ao conseguir levar a sua Toro Rosso até a quinta colocação com pneus para pista seca em pista molhada.
Sebastien Bourdais se destacou durante toda a prova, fazendo a melhor corrida de sua carreira na Fórmula 1. Andando sempre entre os primeiros, Bourdais mostrou porque foi campeão da Champ Car norte-americana nas últimas temporadas –e chegou a ocupar a terceira colocação depois do abandono de Kimi Raikkonen. Porém, no final da prova, Bourdais teve problemas para controlar a sua Toro Rosso e acabou caindo para a sétima colocação.

Robert Kubica também se beneficiou do confuso final de prova. E, se estava em oitavo antes da 42 volta, acabou em sexto no final das contas. Mas o polonês também não fez uma grande corrida. Mas, de toda a forma, a sexta colocação é muito importante para o polonês, que assume a terceira colocação no Campeonato Mundial de Pilotos. Agora, com 58 pontos, Kubica passa Raikkonen no Mundial.
Uma mostra de como o final da prova foi confusa é a diferença entre o quarto e o sétimo colocados. Pouco mais de dois segundos, numa prova de mais de trezentos quilômetros de distância.
Fechando a zona de pontuação ficou Mark Webber, beneficiado pela punição que foi dada também a Timo Glock. O australiano também não fez uma grande prova, mas a Red Bull tem sofrido com os problemas de falta de potência do motor Renault. Assim, a oitava colocação acaba sendo um bom resultado para a equipe da bebida energética.
O Campeonato de Pilotos, então, decorridas 12 das 19 etapas do Mundial de Fórmula 1 tem Lewis Hamilton na 1ª colocação, com 74 pontos. Felipe Massa está em segundo com 70. Robert Kubica assume a terceira colocação, com 58 pontos contra 57 de Kimi Raikkonen. Nick Heidfeld volta para a quinta colocação, com 49 pontos, enquanto Heikki Kovalainen, que acabou abandonando na última volta, cauí para a 6ª colocação, com 43. Jarno Trulli (26), Fernando Alonso (23), Mark Webber (19) e Timo Glock (15) fecham os dez primeiros colocados do Mundial.

A Ferrari lidera o Campeonato de Construtores, com 131 pontos, à frente da McLaren, com 119. A BMWSauber reage e agora soma 107 pontos, bem à frente da Toyota, com 41 pontos, e a Renault, com 36. A Red Bull soma 25 pontos, à frente de Williams e Toro Rosso, com 17. A Honda é a última das equipe que somam pontos, com 14.
O Campeonato Mundial prossegue no próximo domingo –dia 13/09-, com a disputa do tradicional Grande Prêmio da Itália, no mítico circuito de Monza.



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